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A inefabilidade do amor

O amor é algo diferente para cada pessoa que já o sentiuReflete a trajetória de quem ama, assim como as inseguranças, os traumas, as expectativas, os desejos e os sonhos. Reflete, não. Aglutina.

 

O amor é como um maestro, conduzindo uma orquestra de sentimentos e sensações, engatilhados e dedilhados quando olhamos para uma pessoa e queremos nada além do que vê-la em paz.

E não só aquela pessoa que você conheceu em um dia aleatório, por quem você se apaixonou e com quem hoje você mora junto.

 

Também não só aquela pessoa que te deu à luz e dedica incontáveis minutos para te ver crescer saudável.

 

Nem só aquela pessoa que você conheceu na escola e, de tanta afinidade, segue na sua vida até hoje.

 

Tem amor de mãe, de irmão, de amigo, amor com romance.

 

E tem amor a si, também. Aquele amor que vai além do espelho, toca fundo na alma e se transforma em abraço de uma pessoa só. Amor que provavelmente foi desamor em algum momento no passado, que precisou pisar em cacos e respirar fundo para, como um casulo, virar borboleta. E sair voando.

 

Metáforas à parte, o amor é tão complexo e toca tantas searas da vida humana que se torna indescritível. Um simples exercício prova isso: se você parar agora mesmo e perguntar à primeira pessoa que encontrar na rua o que é amor em uma única palavra, provavelmente a resposta será diferente da sua.

 

Tem gente que vai associar amor a paixão, talvez porque se encontra confortável no ideal romântico de “alma gêmea”.

 

Tem gente que vai responder que amor é cuidado, porque já enfrentou muita tempestade por quem ama.

 

Tem até gente que, no auge do coração machucado, vai exclamar que amor pode não ser uma palavra tão positiva — mas não deixa de ser inebriante.

 

É assim, encarando a multiplicidade de características que o amor carrega, que podemos concluir que esse sentimento é inefável. Do latim ineffabĭlis, esta palavra bonita é um adjetivo de dois gêneros que indica:

 

  • primeiro, aquilo que não se pode nomear ou descrever em razão de sua natureza, sua força ou sua beleza; e

  • segundo, aquilo que causa imenso prazer e encantamento.

 

Se cada um de nós enxerga o ato de amar com diferentes olhos, a única constante é a diferença. Amar é inefável.

Amor-íris

O amor está em todo lugar, em todo tempo. É como bradou o pesquisador Renato Noguera: “O amor é inerente à nossa natureza e está presente em todos nós. Enquanto afeto, vive em potência dentro de cada um”.

 

E isso não poderia ser diferente, é claro, quando o assunto é a população LGBTQIA+. Este grupo é historicamente marcado por estigmas e preconceitos que dolorosamente des-potencializam as possibilidades de amor e afeto.

 

Não são poucas as histórias de pessoas LGBTQIA+ resistindo a situações que, outrora — sem uma demarcação de sexualidade e/ou de gênero — seriam impensáveis. Uma das mais marcantes, por exemplo, é o abandono familiar que acontece quando um filho ou uma filha deposita na família a esperança de entendimento e acaba encontrando o desprezo descomedido.

Para pessoas transsexuais, é muito mais difícil encontrar um emprego decente e, por meio dele, viver. Para quem é bissexual, pode ser complicado amar sem ser visto como uma alguém confuso. São diferentes os motivos, as causas e as fontes do afastamento LGBTQIA+ de um amor genuíno.

O inefável abriu formulário, em setembro de 2023, para pessoas LGBTQIA+ de Fortaleza (CE), visando entender a relação deste público com amor e afeto.

 

72,44% das 132 pessoas que responderam definiram sua própria trajetória amorosa de ruim a mediana. Apenas oito pessoas do grupo (6,3%) avaliaram ter tido um histórico afetivo positivo.

Ao tratar sobre a origem dos amores e afetos sentidos pelos participantes, a pesquisa se equilibrou entre romance, amigos e família.

67,7% veem nas amizades a principal fonte de amor em suas vidas; 57,7%, na família; e 43,3%, em um relacionamento amoroso.

Em comparação à relação com outros indivíduos, a experiência das pessoas LGBTQIA+ consigo mesmas é mais complicada. Apenas 34,6% dos respondentes se percebem como fonte própria de amor.

As questões relativas a amor-próprio apresentaram as respostas mais divididas da pesquisa. Em outras perguntas, como “Quanto você considera importante o amor em sua vida hoje?”, as pessoas pesaram para uma devolutiva positiva.

 

No tocante a amor-próprio, metade dos respondentes deram até nota três para a forma como se enxergam; só 21,3% deram nota cinco.

É nesse amor-íris indizível, nunca completamente determinado e em constante transformação que se situa o projeto inefável. Histórias de amor pensadas pelo viés LGBTQIA+, que trazem ao debate afetivo as resistências, as rejeições, as imperfeições e as emoções de quem ergue uma bandeira colorida — e vive uma vida mais colorida ainda.

É como a bandeira do arco-íris, que hoje representa o orgulho de ser LGBTQIA+. Quando estreou, em 1978, tinha oito cores, cada uma delas simbolizando uma ideia. Com o tempo e a necessidade de representar mais indivíduos, novas cores foram sendo adicionadas à bandeira. Ela se mantém, porém, um símbolo máximo de uma galera que, antes de amar, procura viver.

Estas pessoas têm relações específicas com o amor. Que precisam ser estudadas, observadas e contempladas. São relações, inclusive, demarcadas pela interseccionalidade. Elementos diversos do cotidiano humano, desde raça e etnia até deficiências, contribuem para esse cenário.

 

Isso não significa que o amor vivido por quem é LGBTQIA+ é um amor diferente, à parte do resto da sociedade. Talvez seja o mesmo sentimento, mas as peculiaridades e as vivências dos integrantes desta população agregam novos valores — e tornam o amor ainda mais inefável.

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Texto Mateus Brisa

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