
cuidado & parceria
AMOR É...






Mariana, de 46 anos, e Adriana Brizeno, 52, formam um casal que vive e inspira amor. Uma rápida conferida na sala de estar da casa da família, no bairro Barra do Ceará, em Fortaleza (CE), enche o coração.

Fotos com familiares, fotos no casamento delas, fotos em variadas celebrações; trechos de músicas, ilustrações coloridas e artigos de decoração comprados em viagens. É como um baú cheio de riqueza afetiva.
Tudo fruto de uma conexão originada em um espaço, digamos, controverso.
Então adeptas do cristianismo, a reação inicial à ideia de sentirem algo romântico uma pela outra foi conflituosa. Adriana, que é pedagoga e estudante de psicologia, reconhece a “mente fechada” que ambas tinham, naquela época.
“Sofri sozinha quando percebi que não tínhamos apenas uma amizade. Foi difícil assimilar, digerir e entender. Quando a gente finalmente sentou e conversou sobre isso, foi um momento muito difícil”, conta ela.
Mariana concorda e lembra que discutir sexualidade e moral não era nada inédito para ela. Sua filha mais velha, Marília, fruto do casamento anterior, é uma pessoa LGBTQIA+.
“Ela se descobriu e eu não aceitava de jeito nenhum. Eu era o pacote completo de uma pessoa que está dentro da igreja. Então, era uma coisa que eu e Adriana não acreditávamos ser possível, entendíamos como uma confusão mental”, analisa a farmacêutica.
Em retrospecto, Adriana afirma não se arrepender de quem era antes da atual relação, pois “vivia o tempo da ignorância”.
“Quem somos nós para julgar o amor de alguém? Fui muito cruel com o sentimento alheio, com a história de outros. E senti isso na pele, quando me vi do outro lado”, reforça ela.
A estudante de psicologia agradece não somente por ter se desprendido do “tempo de ignorância”, mas também por encontrar alguém com quem ter um relacionamento duradouro.
“A gente se sente privilegiada porque não são todas as relações que duram tanto. Tenho muito orgulho dos sete anos e meio de convivência. Acho que eu não preciso questionar à Mari se o desejo dela é estar comigo até o fim. E esse é o meu desejo”, acrescenta Adriana.
Fim do casamento e “adolescência tardia”
A ligação que Adriana menciona no áudio acima ocorreu em abril de 2015. Nos dois meses seguintes, enquanto a pedagoga pregava o distanciamento, Mariana viveu algo que havia esquecido: a solteirice.
“Eu casei com 17 anos, com meu segundo namorado, e foi difícil desde o começo”, relata. Com o matrimônio interrompido, ela explorou uma “adolescência tardia”: “Eu queria esquecer [o ex-marido]. Comecei a paquerar, baixei o Tinder. Foi muito intenso”.
Enquanto Mariana paquerava, Adriana refletia e recebia atualizações sobre as aventuras amorosas da amiga por meio de conhecidos. “Aquilo me fez pensar que ela havia ‘se perdido’. Para a questão dos valores, era um choque. Até que um dia eu disse: ‘Tá tudo errado dentro de mim’”, lembra.
Em junho, Adriana pediu a Mariana para se encontrarem e desabafarem. A vida delas “mudou completamente” a partir de então.
Construção em família
O amor de Mariana e Adriana ultrapassa as duas e hoje constitui um lar e uma família. O casal vive com os dois filhos de Mariana e sublinham a ideia de cuidado e parceria ao tentar abreviar o amor em pequenas palavras.
A questão é especialmente sensível para Adriana. A pedagoga é a nona filha de seus pais e sempre teve como referência doméstica a casa cheia.
Ela conta que nunca saiu das “asas” dos pais, mesmo após ter renda para comprar um apartamento próprio. “Passei um ano indo lá dormir. Era aquela coisa: vivia mais nos meus pais do que no meu apartamento”, explica.
A cisão desse cenário só foi possível após casar com Mariana, diz a pedagoga, o que significa mais que matrimônio.
“Não casei só com Mari, casei com ela e seus dois filhos, com demandas familiares de todos os lados. É extremamente desafiador”, explica. Para ela, conviver com os três a faz “aprender o que é família todos os dias”.
Já para Mariana, o casamento a fez perceber e se afastar de certas práticas. “Na época que eu era da igreja, todas as pessoas que existiam na minha vida eram de lá. Eu me afastava da família para viver só os relacionamentos da igreja, porque consumia muito a gente”, detalha a farmacêutica.
Segundo ela, os amigos da igreja a abandonaram assim que souberam da relação sáfica. Por isso hoje ela cultiva e celebra a família, que ela enxerga como pessoas “que vão estar do seu lado independente do que acontecer”.
Mariana salienta que hoje prefere manter vínculos menos numerosos. A esposa dela concorda: “É como se a gente tivesse trocado a quantidade pela qualidade. Só da gente poder ser quem somos para essas pessoas, sem nenhuma máscara, livre de rótulos, já é uma grande vantagem”.
A pedagoga sublinha que tais vínculos se constroem com “respeito e convivência, não somente laços sanguíneos”.
“Toda forma de amar é válida. Não existe um modelo único de família, e que bom que não existe. Sou pedagoga e faço questão de semear essa semente da igualdade na minha sala de aula. De entender que não existe receita para o amor, ou uma regra. Que o respeito é imprescindível e que nós podemos tudo desde que seja lícito e nos convenha, e que o mais importante de tudo é nutrir esse respeito, essa parceria e esse amor”
— ADRIANA BRIZENO
A entrevista concedida por Mariana e Adriana Brizeno ao inefável ocorreu quase um ano antes de surgir um projeto de lei, na Câmara dos Deputados, que visa proibir o casamento entre pessoas do mesmo sexo.
A última movimentação do projeto foi a aprovação, por 12 votos a cinco, na Comissão de Previdência, Assistência Social, Infância, Adolescência e Família.
Soa regressivo um projeto de lei contra a união homoafetiva, principalmente após tantos avanços nos direitos das pessoas LGBTQIA+, não só no Ceará, como no Brasil todo. Se houvesse tal proibição, Mariana e Adriana teriam provavelmente enfrentado dificuldades para oficializar sua relação. Como se existisse algum problema no amor das duas. Amar não é um erro.
Para manter a reflexão em mente, ouça abaixo a playlist que tocou na festa de casamento de Mariana e Adriana, cedida com carinho ao inefável:
Entrevista realizada em 11/12/2022
Texto Mateus Brisa
Imagens e apoio Daniel Freitas
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