
liberdade
AMOR É...
“Acredito, sim, que o amor é composto por linguagens. A minha é mais no lance da preocupação, sabe? Perguntar se você está bem, já bebeu água… Sou assim com quem me relaciono”. As palavras encapsulam sublimemente a trajetória de amor em forma de solidariedade e empatia de Nik Hot, de 28 anos.



Primeira travesti funkeira do Ceará, a fortalezense ajudou a fundar a Casa Transformar, que acolhe pessoas LGBTQIA+ em situação de vulnerabilidade. A caminhada de Nik na música e no amparo social acompanhou transições — de gênero, de relacionamento familiar e de autopercepção.
Atravessar tais experiências levou Nik a perceber que amor é liberdade.
Por meio da liberdade de ser quem é, ela trabalhou suas relações interpessoais, acolheu pessoas sob vulnerabilidade, criou laços estáveis e explorou sua arte.
E amor, segundo ela, “só funciona” com liberdade: “A partir do momento que prende, não é amor”.
Parte interna da Casa Transformar, uma das casas de acolhimento LGBTQIA+ do Ceará, durante visita do inefável em 19 de maio de 2023 (Foto: Mateus Brisa)
Mesmo convicta em equiparar o amar e o ser livre, Nik não reluta em relacionar afeto a outras perspectivas. “Para mim, a importância do amor está também em colaborar. O amor só funciona com colaboração. Se amo outras pessoas e outras pessoas também dizem que me amam, acho que tem que haver uma colaboração para aquele amor continuar fluindo”, analisa.
Apesar do gosto por falar de amor, Nik compreende que deixou o tema de lado por precisar “lutar para estar viva”, enfrentando os estigmas e as vulnerabilidades que marcam a vivência da população trans no Brasil.
A transfobia e a discriminação cotidianas também auxiliaram na relegação da pauta amorosa em sua vida: “Eu não vejo amor nos lugares enquanto travesti. Se vou ao supermercado, eu não vejo olhares de amor, mas de assédio”.
Ela evidencia a necessidade de segmentar a população LGBTQIA+ quando o assunto é afeto. “A população trans não luta para amar, luta para sobreviver e existir. Antes de lutar para amar alguém, ou ter a liberdade de amar alguém, eu luto para estar viva, porque como eu vou amar estando morta?”


“Eu vejo amor nessa percepção de algo que eu ainda preciso entender. Porque meu foco realmente nunca foi lutar para amar alguém. Não que eu não queira, mas eu ainda tô nesse processo de... como posso dizer? Formular o que seria o amor para mim enquanto uma travesti”
Para Nik, “a sociedade precisa de mais amor” e o ato de “guardar a opinião para si” seria uma ferramenta para isso. “Se uma pessoa não despeja a transfobia dela nos outros, pode até não estar amando, mas estaria poupando muitas situações. Eu amaria isso, não vou mentir”, argumenta.
Solidariedade em forma de amor
O desejo de Nik por uma sociedade que propala o respeito reflete sua dedicação à solidariedade e à empatia. Maior exemplo disto é a Casa Transformar, que na data de publicação deste perfil abrigava quatro pessoas. O espaço funciona no bairro Siqueira, em Fortaleza (CE), em um terreno que pertence à família de Nik e cerca duas residências e muita área livre.
Segundo a funkeira, a primeira vez que ela abrigou uma pessoa LGBTQIA+ foi no final de 2017. “Tudo começou com uma trava que foi demitida do trabalho e a família não queria por perto porque era travesti. Sem trabalho, ela não conseguiu pagar aluguel e foi para a rua. Bateu no nosso portão, a gente nem conhecia direito; ela pediu para dormir uma noite e ficou três meses”, lembra.
Aquele momento mudou a vida de Nik e de outras pessoas que faziam parte do seu dia a dia. O contexto de alguém procurar abrigo por “um final de semana” e “ficar um, dois meses” se repetiu mais de uma vez. Afinal, Nik ressalta, conseguir emprego e moradia é uma tarefa mais árdua para pessoas trans.
Pintura em uma das paredes na parte interna da Casa Transformar, durante visita do inefável em 19 de maio de 2023 (Foto: Mateus Brisa)
Pensando nisso, a Casa Transformar também oferta capacitações, conversas terapêuticas e oficinas criativas, entre outros espaços de engrandecimento pessoal e profissional. Atualmente, a organização não-governamental (ONG) é mantida principalmente por meio de doações e eventuais parcerias.
As doações só passaram a fazer parte da realidade da Casa Transformar em outubro de 2019, quando foi criado um perfil no Instagram. Antes disso, Nik e sua família não-biológica batalhavam para sobreviver com rendas passageiras. No entanto, a fortalezense frisa que o sufoco também a “salvou”.
“Antes da gente realmente se tornar Casa Transformar, meus pais se separaram. Foram casados por 35 anos e eu sempre tive eles como casal base. Foi um baque psicológico muito louco para mim”, narra Nik.
O tempo e a atenção que a artista dedicou às demandas da Casa Transformar a ajudaram a lidar com sintomas de depressão e ansiedade.
“Quando a Casa deu um boom, a gente não parava, literalmente. Me ajudou trazendo novos ares, para que eu pudesse não me deixar ser consumida pela separação dos meus pais. Então, a Casa me salvou e me salva todos os dias”.

Não só salvar, a Casa Transformar permitiu a Nik “abrir os olhos para ter uma visão mais ampla do que é amor”. Nos quase seis anos de acolhimento, o espaço abrigou diversas histórias.
“Passa muita gente e você acaba amando cada um. Tento receber com o máximo de amor, porque eu sei que poderia ser eu naquela situação. Isso mexeu muito com o meu sentimental quando se trata de amor, porque amor também é empatia”, reflete ela.
“Eu acho que a empatia é muito mais amor do que o próprio amor. Pode até não fazer sentido. Mas o fato de você se colocar no lugar do outro, ou pelo menos, com o pouco que você tem, tentar fazer a vida do outro menos dolorosa, é uma prova de amor imensa”
A Casa Transformar remodelou, também, o sentimentalismo de Nik. Ela pontua não ter tido “tanto afeto” durante a infância, o que fez dela uma pessoa pouco afetuosa. “Antes eu não era de abraçar as pessoas, sabe? Esse meu lance da afetividade, do sentimentalismo, se aflorou depois da Casa Transformar. Porque fez com que eu convivesse com outras pessoas”, finaliza.
Entrevista realizada em 19/05/2023
Texto e imagens Mateus Brisa
Imagens Reprodução/Instagram
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