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AMOR É...

Nik Hot, de 28 anos, argumenta que, para quem é LGBTQIA+, o primeiro afastamento do amor e do afeto pode “vir da base” e ser provocado pelo núcleo familiar mais próximo. “A partir do momento que você fala sobre sua orientação sexual ou identidade de gênero e já rola aquela repressão”, descreve a funkeira.

 

“Principalmente para nós, trans e travestis, ainda há o costume de justificar [preconceitos] com ‘eu te conheci assim’, ‘você nasceu assim’. Quando você não consegue respeitar o gênero de um filho ou uma filha, eu vejo uma total falta de amor, sabe? Porque amor também vem de compreensão”, diz.

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Atualmente, Nik tem uma relação tranquila com pai, mãe e irmãos, mas precisou enfrentar um longo processo de adaptação: “Fico triste porque [o respeito familiar] não foi uma coisa espontânea, porém fico feliz porque consegui educar todos. A parte da família que importa para mim super me respeita, me ama e é tudo. Nossa relação é maravilhosa”.

 

Este processo de adaptação começou com Nik saindo de casa para ser respeitada. “Não queria que tivesse sido assim, até porque quando eu transicionei, quando eu externalizei a Nik, eu nunca pedi um real a nenhum para pagar uma conta. Eu nunca fui dependente deles para que eles reagissem a ponto de eu ter que ir embora para eles me respeitarem”, conta.

 

Além das questões familiares, a transição de Nik foi marcada pelo início de uma fase mais amorosa em relação à sua percepção de si. Ela conta que, desde criança, se considerava “esteticamente não tão interessante”.

 

Porém, eventualmente percebeu que suas questões com aparência ocorriam porque ela “realmente não estava feliz com o gênero que estava apresentando”.

“Desde a transição, comecei a trabalhar meu amor-próprio. Mas continuo nesse processo. Tem dias em que quero me jogar num poço, de me achar feia, uó. Mas assim, sou geminiana, cinco minutos depois tô me achando bonita, três depois eu já tô me achando feia de novo. Entendeu? Meu amor próprio é bem bipolar, igual meu signo. Basicamente isso. Mas estou trabalhando... E eu tô mais para bem do que para mal nesse quesito”

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"Cuido, gosto de atenção, mas sou desprendida"

A dedicação de Nik Hot àqueles que ama, perceptível no objetivo bem-sucedido de educar parentes para respeitá-la, também envolve suas amizades.

 

Sem “paciência” para construir novos laços, a funkeira prefere manter um círculo pequeno e duradouro de amigos, com quem “está ali para toda hora”.

 

Isso pode estar relacionado, ela analisa, à sua forma de se relacionar: “Eu sou muito mais mãe do que amiga, sabe? Cuido muito, gosto de atenção, mas, ao mesmo tempo, sou bem desprendida de obrigações”.

 

Ela reconhece não ser “aquela amiga que não fala contigo todos os dias”, mas que ajuda e se faz presente “se um dia você precisar de mim”.

 

Nik sorri ao comentar seu amigo “mais recente”: o próprio marido, Gabriel.

 

Ela destaca que o relacionamento também é uma amizade: “Não adianta ser só marido, tem que ser amigo, companheiro, amante, noivo, colega”.

​“Sempre falo que amor não é suficiente em um relacionamento a dois. É importante, mas não suficiente. Por exemplo, do que adianta você estar com um cara que diz que te ama todos os dias, mas não te apoia?”

Nik e Gabriel se conheceram por meio de uma amizade em comum: Emilly, que é moradora da Casa Transformar. Ele começou a seguir o perfil de Nik após vê-la em uma publicação de Emilly.

 

“A gente conversava, mas nos afastamos um tempo por compromissos. E resolvi ficar mais de boa. Aí ele precisou vir [para a Casa] e um mês depois a gente começou a namorar”, narra. A relação amorosa é “tranquila”, descreve a artista. Ela rejubila por não “precisar se moldar para caber no mundo do Gabriel”.

 

Também uma pessoa trans, Gabriel nunca havia se relacionado com uma travesti antes de Nik.

 

“Ele sempre se relacionou com mulheres cis. Acabou que aconteceu entre a gente. É um relacionamento de muito companheirismo e compreensão”.

Nik e Gabriel se casaram em 12 de setembro de 2023, quase quatro meses após a entrevista dada pela artista ao inefável.

O casório aconteceu um mês depois do casal descobrir que estava esperando um bebê. A pequena Flora Liz nasceu em 6 de abril de 2024.

Entrevista realizada em 19/05/2023

Texto e imagens Mateus Brisa

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