
coragem
AMOR É...
Filha única, Labelle Rainbow, de 39 anos, teve uma infância marcada por duas figuras centrais que dividiam a tarefa de acompanhá-la crescendo: a mãe, Maria de Fátima, que hoje tem 70 anos, e a falecida avó, Rosa Helena.
Inicialmente, a pequena Labelle passava mais tempo em casa com a avó, enquanto a mãe trabalhava como diarista. Maria de Fátima passou a acompanhar mais o cotidiano quando a filha sofreu uma situação de violência doméstica, sobre a qual a ativista não entra em detalhes.
Segundo ela, sentir o amor de mãe e avó após o ocorrido é uma de suas memórias de amor mais longevas. “Minha vó chegou na linha de frente, para se colocar como defensora mesmo. E era nítido o amor dela, porque foi no abraço que eu me acalmei, que eu senti força para resistir àquilo tudo”, relata.
“Minha mãe acabou transformando a vida dela a partir dessa situação, porque ela viu que não tinha mais como me deixar somente com minha vó. Ela largou o que estava fazendo naquele tempo e a gente foi construir casa e morar junto de outra pessoa, que não era meu pai biológico, com quem ela estava num relacionamento”
A experiência de ser filha única impulsionou Labelle a encontrar irmãos e irmãs, como ela se refere, fora de casa. Um primeiro espaço propício para isto foi a escola básica, período durante o qual ela descobriu e se apaixonou pela Comunicação Social ao participar da construção de um jornal coletivo.
Após isso, também encontrou fraternidade durante suas passagens pelos movimentos políticos negros, de juventude e LGBTQIA+. Ela evidencia “não ter uma dívida com os movimentos sociais, e sim um reconhecimento muito forte”.
Isso porque a coletividade da militância lhe forneceu novas perspectivas. “São encontros das vidas. Eu não estaria viva se não fosse pela construção coletiva dos movimentos, além da existência da educação na nossa vida”, diz.
Quando perguntada sobre amizades que enlaçam sua trajetória como ativista, como mulher travesti e como ser humano em busca de afeto, Labelle solta um sorriso para contar como conheceu Dáry Bezerra, amiga que também é irmã.
A Labelle ativista
A inserção de Labelle Rainbow no movimento político LGBTQIA+ se deu em 2004, após muitos anos envolvida com outras pautas. “Cheguei quietinha e tímida, conhecendo e reconhecendo figuras importantes”, relata.
Uma figura que Labelle não chegou a conhecer, mas que tem como referência, é Janaína Dutra, advogada natural de Canindé e primeira travesti a portar uma carteira profissional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).
Labelle lembra, entre um cigarro e outro, que já ouviu muitos elogios sobre a contribuição de Janaína para o País.
“Naquela época o que a gente tinha como marco legal era o Brasil Sem Homofobia. Era o primeiro plano nacional que colocava diretrizes, apontava o que tinha que ser construído como política pública que atendesse às nossas demandas. E Janaína contribuiu para o plano. O foco era garantir cidadania, e eu entendi isso como um grande marco”
Sempre em busca de colaborar, Labelle foi atrás de seu próprio marco, mesmo passando por uma luta árdua.
“Eu sempre me cobrava e a resposta que eu tinha para mim mesma era: ‘minha filha, você vai batalhar muito aqui, não tem salário, não tem férias remuneradas, não tem 13º, é dia a dia, é por você, pelas outras e pelos outros’”.
De seus primeiros passos na militância LGBTQIA+ para cá, a fortalezense passou por diversas funções e etapas.
Na mais recente, ela precisou se ausentar dos protestos para lutar por meio do trabalho na gestão pública. Labelle integrou a Coordenadoria Especial da Diversidade Sexual (COEDIV), da Prefeitura de Fortaleza, entre 2017 e 2023. E foi titular da pasta nos três últimos anos do período.
“Minha preocupação diária era respeitar as demandas da população LGBTQIA+, reconhecendo que eu estava ali com um propósito, mas sendo respaldada e referendada pelo próprio movimento”, analisa.



Labelle reforça o caráter indiscutivelmente colaborativo de seu percurso: “A gente aprende na vida que não se faz nada sozinho ou sozinha. Ao mesmo tempo que contribuíram comigo, eu contribui com várias figuras que nesses últimos 20 anos têm atuações importantes”.
Labelle cita Paulo Diógenes, Dediane Souza, Thina Rodrigues, Mitchelle Meira e Helena Vieira, entre outros e outras, como nomes da mesma geração que ela na militância. Uma consequência da ação conjunta destas pessoas ativistas foi, destaca ela, fazer do Ceará uma referência nacional.
“Inclusive, amigos e amigas [de outros estados e cidades] pedem para enviarmos textos legislativos para se espelharem, porque o negócio aqui está mais evoluído”.
Ainda elencando as conquistas políticas dos últimos anos no Estado, Labelle cita os dois centros de assistência à população LGBTQIA+:
-
um municipal, nomeado após Janaína e situado no Centro de Fortaleza; e
-
outro estadual, nomeado após Thina Rodrigues e situado no bairro Papicu, também na capital cearense.
“Eles funcionam para atender diretamente a nossa população”, acrescenta. “Temos também Plano Estadual [de Enfrentamento à LGBTfobia, instituído em 2017] e várias cidades pensando e implementando seus próprios planos. Temos conselhos, espaços democráticos de debate”, enumera.
O desafio para quem toca as políticas públicas de gênero e sexualidade no Ceará, na visão de Labelle, é “manter e inovar”.
“Existem muitas outras coisas que nossa população precisa acessar. Tem coisas que vão ficando no final da ‘listinha’; o amor é uma delas”.
Entrevista realizada em 11/04/2023
Texto e imagens Mateus Brisa
Quer explorar mais palavrinhas?
Clique aqui para retornar à Página inicial
