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sorte

AMOR É...

Se um dia a imortal Rita Lee cantou que amor é sorte, quem somos nós para discordar? Ela, que tanto traduziu o amor — e outras drogas — em seus versos…

 

Bem, vivo o pior ano da minha vida. Um luto abrupto, cortante, avassalador. Há oito meses perdi minha mãe, justamente o maior significado de amor que tive. E de tantos outros sentimentos também.

 

Me encontro, desde então, num constante desencontro. A sensação é de que me foi tomado algo, como por um assalto divino. E algo nada pequeno.


No meio da dor, pude perceber, dentre tantas coisas, que tive sorte em tê-la como mãe (e pai, e irmã, e amiga). Sorte em passar com ela o tempo que pudemos passar juntos.


Sorte & amor. Porque amor, além de sorte, é também cuidado. E foi isso o que mais aprendi com ela (e com o filme Lady Bird): amar é cuidar, prestar atenção
Pensei ainda: será que fui merecedor de tamanha sorte?


Porque hoje, com tanto menos amor ao meu redor — embora não pouco —, penso se amor também é merecimento. Ou se, nesse caso, sorte e merecimento são sinônimos.


A sorte de ganhar na loteria também não é merecimento? A sorte de achar um amor tranquilo também não é merecimento?

Desde que fui convocado a escrever (e descrever) o amor em um texto por Mateus, uma das pessoas que curiosamente mais amo no mundo, navego por dentro de mim como quem tenta pescar uma inspiração, mas confesso: tem sido difícil encontrar.

É quase como se eu estivesse num escuro interior. Vai ver é como a falta é. Vai ver é o que a falta faz. Se um dia terei luz para me guiar novamente? Por ora não sei.

 

Há muito o que esquecer. Há muito o que lembrar. Há muito o que curar.​

Mas voltemos ao amor — e à sorte. Falemos aqui da dificuldade de acesso a esses sentimentos por pessoas em dissidência. Eu, pessoa trans não-binária que o diga.

Sinto que, se me comparo, me falta amor e desejo. Me falta escolha. Rita Lee também dizia: sexo é escolha. Se é que me entendem.

 

Mas, não reclamo. Porque senti amor. Senti cuidado. Senti sorte. Tudo isso ao ser amado por minha mãe.

Posso até sentir que esse amor não me volta mais, sendo impossível encontrá-lo vagando por aí. Foi-se com ela, eu acho.

Mas fez o que eu sou. Me levou aonde levou. Foi base, alicerce, escudo. E foi tão bom, que me faz querer, sim, agarrá-lo outra vez. Seja passando um tempo com minha cachorra, com meus amigos, nadando no mar enquanto o sol insiste em queimar ou comendo um BRISAdeiro.

Aliás, Mateus, te convido para um. Brindemos (de colher) à sua nova fase, à vida, ao amor, à sorte!

Texto João Duarte

Jornalista "cria" da UFC. Duas vezes vencedor do prêmio Gandhi de Comunicação. Foi repórter do Sistema Verdes Mares e já passou pelo marketing de grandes empresas. Atualmente trabalha com redação, redes sociais e o que mais o tempo permitir. Ama escrever e também ataca de DJ!

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