
existir
AMOR É...
dá pra existir sem que haja amor?
acho que comecei a existir quando percebi que habitava essas zonas litorâneas do amor,
amor feito assim um nó que vai se desatando, meio assim inefável mesmo.
se vai ganhando formato cor gosto
ensaiar o amor assim, sinestesicamente, acho que é pensar
nessas intermitentes e incontroláveis formas de existir,
e acho que existir é uma forma de amar.
e dá pra existir mesmo sem que haja amor?
borbulhar no tempo, sentir a chuva, ver o amor desobstruído as veias de
quando não se tem vista pro mar, quando não se sente fresco no pé.
o dizer que ama quando quase se ama já é existir
e amar quando acha que quase ama também
e quase dizer que ama quando quer amar
é tornar-se algo também.
pra você? pro outro? acho que pro todo mesmo.
talvez todo amor que se despeja pro outro-algo
torna a existência disso possível.
o amor tem todas as texturas do mundo?
eu acho mesmo que sim!
mas será que de alguma forma dá pra (existir) sem que haja amor?
digo mesmo que não, acho que amar é essa maneira doida que achamos
pra compreender as nossas existências,
a existência do outro.
compreender o existir do outro e o nosso também
é rever, respeitar essa existência.
muitas vezes a gente não respeita ela, né?
colocar o amor assim… “eu amo, eu existo”,
talvez seja também um caminho de se manter pertencente a algo,
mas é difícil também sentir essa coisa de pertencer, né?
mas olha… se tem amor, pertence.
mas e Existir… dá pra ser sem amor?
essa coisa de amar é existir porque a gente não existe sem que o amor habite pelo menos num microcosmo do manhã-tarde-noite do que tentamos entender o que é viver,
e viver sem amor é perder tarde de calçada na rua,
janela aberta com ventinho
toque no cabelo branco de vó
ronronar de gato na beira da cama
cheiro no pezinho do pescoço
vez ou outra quando buscamos as formas genuínas de amar,
que não foram tão bem construídas para serem dignas,
essa existência meio doida é desmembrada
a gente acaba deixando de existir várias vezes,
e essa des-existência escorre pra uns lugares meio ruidosos, né?
de esquecimento, perde o doce.
quando a gente deixa de existir, nossa forma de amor demora a deixar de existir, sei lá.
mas quando a nossa forma de amar deixa de existir é quando acho que a gente deixa de existir.
se a gente não rega em canto algum,
pra onde vai todo esse amor que o tempo vai deixando na gente?
e dá, seja lá como for, pra e-x-i-s-t-i-r sem que não reste nada de amor?
me disseram uma vez que o amor é uma forma de deixar ser livre,
e liberdade é talvez o que nos deixa mais vivos nas possibilidades que temos.
escolher amar é tornar aquilo que a gente ama existente,
e escolher existir é cruelmente, infelizmente, meticulosamente, ardentemente, às vezes inviavelmente, imensuravelmente e malemolentemente amar.
e quando o amor se esgueira e mergulha até achar um canto,
aí é fim de estrada,
começo de outra.
e nem faz tanto mal assim sentir demais.
às vezes o amor se torna saudade.
mas a saudade às vezes é uma forma de fazer algo existir
sentir saudade, manter o algo vivo.
e o amor tem textura?
acho que de pele molhada? de boca aberta de riso?
de abraço na quenturinha do bar?
e dizer "até logo" pra esse tal de amor?
às vezes é segurar os punhos.
dizer que ama sem dizer que ama, não.
aí, acho que não.
amar também é não deixar esquecer e não deixar esquecer é
esse tal de até logo
correr do temporal da gente faz parte
mas dói tanto dizer um até logo.
até "eu te ver de novo, eu tomar seu café de novo, eu cheirar teu cangote de novo, eu deitar no teu colo de novo, eu abraçar o gato de novo, eu comer manga verde azedinha de novo, eu passar creme no cotovelo antes de dormir de novo".
às vezes esse até logo vira mesmo fim né?
tudo certo o amor virar outras coisas aqui
dentro.
o amor tem todas as texturas do mundo?
na verdade acho que sim.
sim.
acho que amar é isso mesmo.
se o amor tivesse uma cor?
acho que seria assim marronzinho
douradinho queimadinho escurinho
de sol?
tem sol demais, acho que é por aí mesmo.
te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo te amo
te amooooooo teeee amooo te aaaaamo
te amo
te amo?
te amo
eu também.
coisa difícil de dizer, né?
dá pra existir sem que haja amor?
acho que não.
Texto por Ezequiel Vieira
Jornalista em formação pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Atua nas áreas de redação, fotografia e comunicação para a sociedade civil organizada. Desenvolve pesquisa nos campos de estudos de mídia, cultura ballroom e também na literatura
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