
ética
AMOR É...
“Erótica, pervertida e afetiva”. É assim que se autodescreve a artista, curadora, professora e gestora cultural Bárbara Banida, de 26 anos. Fundadora da Banida Plataforma e criadora de diversas outras expressões artísticas no Ceará, ela é uma força motriz quando o assunto é afetividade.



De tanto debater e viver relações, Bárbara é enfática ao responder que amor, em uma palavra, é ética.
“Para mim, amor é o que pauta a construção de uma sociedade saudável. Aquele amor que pensa que toda pessoa merece o mesmo nível de felicidade que nós. E isso é um significado possível para a ética”.
Na visão da pesquisadora, amar e agir estão entrelaçados com ética da mesma forma que os seres humanos “são muito interconectados, que não existe esse cuidado e carinho de si sem o cuidado e o carinho do outro”.
“E não tem um ‘porquê’ científico. O amor transborda perspectivas racionais”, acrescenta Bárbara. “Até quando tu pede para eu resumir o amor em uma palavra, é difícil. Porque isso não é uma questão do amor, isso é uma questão da linguagem, isso é uma questão linguística”.
Além da palavra, outro ponto de reflexão nas relações afetivas, para Bárbara, é a lembrança: “Às vezes a gente lembra pouco do quanto a gente é amada”.
“Sempre tento retornar a isso com Arrudinha [namorado de Bárbara], porque eu sou mais impetuosa, gigantesca, banida. E ele é uma pessoa que ama de maneira muito incrível e intensa, mas ao mesmo tempo muito leve, muito gostosa. E às vezes você não consegue perceber e não consegue lembrar do quanto você é amado, como é gostoso”, explica.
Perguntada sobre a primeira lembrança de se sentir amada, a artista reflete: “Foi com meus pais, antes de eu ser eu. Fui amada na expectativa do corpo que eu viria a ser. Depois, você também é odiada por não se tornar a expectativa”.
Pessoa trans não binária, Bárbara defende ser “difícil” cobrar de pessoas LGBTQIA+ — indivíduos, segundo ela, “expostos a uma violência excessiva” — que saibam como amar. “Até enquanto professora, sou muito tranquila. A favor de construir uma maneira saudável de amar”.
Estudar e pesquisar sobre amor é um passo significativo para entender melhor a presença e o impacto desse sentimento na vida humana, diz Bárbara.
“É necessário que a gente sempre eduque nossos afetos. Não ‘docilizando’ eles, ou coibindo. Mas acolhendo, entendendo, compartilhando”, enfatiza.
A curadora acrescenta que a prática do diálogo é parte essencial da jornada de conhecimento nas relações. “Tem muita gente que tem medo de se indispor com o outro para dizer o que não gosta. E eu não sou essa pessoa”.
“Definitivamente não sou de evitar conflitos. Não é que eu seja de provocar. Mas os conflitos existem. E a gente precisa lidar com eles da maneira mais amigável. E também [precisa] não ter medo de pedir desculpa. Sou muito geniosa, para eu aprender a pedir desculpa, foi muito tempo. E pedir desculpa é um ato de amor do caralho”
Ter tempo para viver e amar
Quem ajuda Bárbara a entender quando e como ceder é o namorado, Arrudas Maria. “Ele me influencia nesses bons espaços. Sinto que, não fosse ele comigo, talvez eu continuasse no ritmo desenfreado”, analisa a pesquisadora.
“Lembro de uma vez que eu estava enlouquecida, terminando o mestrado e eu namorava outra pessoa, na época. Ele tava de toalha vermelha, mexendo nas coisas da casa. Eu tava escrevendo, parei, e digitei: não quero mais escrever, quero curtir o tempo de amar a bicha que mora comigo”, narra ela.
"Quero curtir um tempo ao lado das pessoas. Tempo para amar, para amar a mim. (...) E é louco porque eu acho que amar as outras bichas que eu já amei me ajuda a amar melhor a bicha que eu amo hoje”
Quando questionada como ela e Arrudas se conheceram, a curadora brinca que “não foi um espetáculo”. Está aberto para debate.
Segundo ela, um primo com dificuldades para socializar pediu ajuda para conseguir beijar alguém. “Eu falei: ‘tu já usou o Tinder?’ Foi no Natal da minha família, em 23 de dezembro de 2021. Eu abri o aplicativo para mostrar como funciona e tinha uma mensagem do Arrudinha”, narra Bárbara.
Arrudas lembra que chegou à casa de Bárbara, no primeiro encontro do casal, às 14 horas. “A gente ficou conversando, com fome um do outro, até 3 horas da madrugada. E eu fiquei numa nóia de que não podia ficar para dormir. ‘Se ficar para dormir, eu vou estar…’ Aquelas coisas imbecis, sabe?”, explica.
“No segundo encontro, eu disse assim: ‘Eu te amo, eu tô apavorado por isso, mas quero que você saiba, eu já te amo’”, lembra ele.
Bárbara complementa: “Depois, ele me pediu em namoro enquanto eu estava viajando. Fiquei enfurecida!” Não demorou para o casal dividir uma vida sob o mesmo teto, mas foi preciso enfrentar questões antes disso.
Bárbara foi o primeiro “namoro sério” de Arrudas, segundo ele conta. O artista recuou quando descobriu que a parceira era não monogâmica.
“Ele terminou comigo quando soube”, explica Bárbara. “Eu perguntei: ‘tu realmente quer terminar?’ E ele: ‘não’”.
“Ela foi muito generosa comigo. É algo que marca nossa relação, a generosidade, o processo de escuta, de explicação. Eu estava, ‘meu Deus, a monogamia’, e ela disse, ‘espera, vamos conversar sobre isso, deixa eu te falar por que me entendo como não-monogâmica”, diz Arrudas.
O ato de conversar e refletir sobre a não-monogamia corresponde à percepção de Bárbara sobre como a sociedade deve amar. “Algumas pessoas aderem à não-monogamia circunstancialmente, sem pesquisar a fundo. Você precisa ler”.
“Nem que você só escute relatos, converse com outras pessoas. Precisa haver uma pesquisa. O raso não dá conta da profundidade que o amor é”
Família(s): biológica, de escolha e de encontros
A expansividade afetiva de Bárbara pode ser entendida, em parte, pela família — que é “grande”, como ela mesmo adjetiva. “Minha mãe se casou três vezes”, explica a pesquisadora. “A família do primeiro marido dela também se tornou minha. É o tio Marcelo. A ex-sogra da minha mãe é minha madrinha”.
“Depois, minha mãe casou com meu pai, que tem sete irmãos. Eu tenho muitos, muitos primos, e primos próximos, primos-irmãos. Ter esses primos foi o que me reconciliou com a possibilidade de ter uma relação confortável de amizade com pessoas heterossexuais”, brinca Bárbara.
A artista demonstra ter facilidade para cultivar e alimentar vínculos dos mais diversos tipos. “Sou próxima do meu irmão, Davi; ele tem uma esposa que também é uma irmã para mim. Eles têm um grupo de amigos de infância. Todos também me acolhem como irmã mais nova, ou amiga”, diz.
A mãe de Bárbara, que possibilitou diversas das ligações mencionadas, tem uma relação de compreensão com a filha. “Já houve violência, mas minha mãe tem passado por uma descoberta muito foda nos últimos anos”, conta.
Bárbara se assumiu inicialmente como gay, depois bissexual, então pessoa não-binária. Durante o processo, a mãe dela passou a estudar sobre as questões de gênero e sexualidade.
“Ela entrou no Mães pela Diversidade. Criou uma página de psicanálise cujo primeiro vídeo é ela falando que os pais de crianças LGBTQIA+ precisam pesquisar sobre a sexualidade deles mesmos”, explica.
Já com o pai, a pesquisadora mantém uma relação que funciona pois, segundo ela, é cultivada à distância. “Enquanto próximos, não dava certo. Era ruim, doloroso, violento. Para ele, é difícil entender isso. Talvez porque ele também foi exposto a muita violência. É uma pessoa que teve infância muito pobre”.
“Eram seis irmãos em uma casa. Havia dificuldades, insegurança alimentar. Isso faz um ambiente muito inóspito, ao qual ele se acostumou. Além disso, há uma tentativa de assumir uma masculinidade que ninguém dá conta”, pontua.
Do assunto pai e filha, Bárbara navega para a chamada família de escolha — aquela constituída por laços não sanguíneos. “É muito doido”, comenta ela, “porque é de escolha, mas também de encontros, demandas, necessidades. A gente se encontra, se aglutina porque sofre violência de todos os lados”.
A pesquisadora lembra que uma das primeiras famílias de escolha, em sua vida, veio do grupo de teatro do Ensino Fundamental: “A gente sofria violência no ambiente escolar, e no teatro a gente se encontrava para se abraçar”.
“Era um espaço de pessoas ‘contra-norma’. Dali, surgiram diversas dissidências, transgressões. Eram pessoas num lugar normativo que se agrupavam para entender que ‘caramba, estamos mal aqui, mas também somos grupo’. A gente também consegue ser bando”, finaliza Bárbara.
Entrevista realizada em 25/03/2023
Texto e imagens Mateus Brisa
Imagens e apoio Marília Torres
Imagens Reprodução/Instagram
Quer explorar mais palavrinhas?
Clique aqui para retornar à Página inicial


















